Clássicos em Medicina de Emergência - Estudo DEVICE

Editor: Lucas Silva, MD, MS, FABRAMEDE.

Cenário Clínico

Na sala de emergência, o Dr. Costa, um preceptor experiente, e a Dra. Lima, uma residente de medicina de emergência, debatem sobre o uso de vídeo-laringoscopia versus laringoscopia direta durante uma intubação.

A Dra. Lima argumenta que prefere a laringoscopia direta, pois é a técnica que aprendeu durante a faculdade e com a qual se sente mais familiarizada. Ela acredita que consegue obter uma boa visualização das cordas vocais e realizar a intubação de forma eficiente.

O Dr. Costa contrapõe, sugerindo que a vídeo-laringoscopia facilita a visualização das cordas vocais, especialmente em pacientes com anatomia desafiadora, e também permite um melhor feedback para corrigir as micro-habilidades na técnica de intubação.

No intuito de embasar sua argumentação, o Dr. Costa sugere que a Dra. Lima leia o estudo DEVICE trial, recentemente publicado no New England Journal of Medicine em junho de 2023. Ele destaca que o estudo fornece evidências relevantes comparando as duas técnicas e pode ajudá-los a tomar uma decisão fundamentada.

Citação

Prekker ME, Driver BE, Trent SA, et al. Video versus Direct Laryngoscopy for Tracheal Intubation of Critically Ill Adults [published online ahead of print, 2023 Jun 16]. N Engl J Med. 2023;10.1056/NEJMoa2301601. doi:10.1056/NEJMoa2301601

Questão PICO

  • População: pacientes adultos (idade ≥ 18 anos) que necessitavam de intubação endotraqueal em ambiente fora do bloco cirúrgico (departamento de emergência ou unidade de terapia intensiva).

    • Critérios de exclusão: Gravidez, prisioneiros, necessidade de intubação imediata que impossibilitasse que o paciente fosse randomizado, ou médico determinou que um dos métodos era definitivamente melhor naquela situação.
  • Intervenção: intubação por video-laringoscopia (sem restrição ao dispositivo ou lâmina).

  • Controle: intubação por laringoscopia direta.

  • Outcomes (desfechos):

    • Primário: sucesso da intubação na primeira tentativa.
    • Secundário: incidência de complicações graves (definida como hipoxemia grave [SatO2 < 80%], hipotensão grave [PA sistólica < 65 mmHg], necessidade ou aumento de droga vasoativa, parada cardiorrespiratória ou morte).

Centros do Estudo

  • Estudo multicêntrico.
  • 17 hospitais nos Estados Unidos, sendo 7 departamentos de emergência e 10 UTIs.

Delineamento do Estudo

  • Ensaio clínico randomizado.

Pacientes do Estudo

  • 1420 pacientes foram randomizados e apenas 3 foram excluídos após randomização (esses 3 pacientes eram prisioneiros, um dos critérios de exclusão do estudo).

  • Desses 1417, 705 foram randomizados para o braço da vídeo-laringoscopia e 712 para o braço da laringoscopia direta.

    • Não existia limitação de qual dispositivo ou lâmina deveria ser usada no grupo da vídeo-laringoscopia. Entretanto, o dispositivo mais usado foi o C-MAC com a lâmina convencional.
  • A população dos pacientes incluídos era essencialmente pacientes de meia idade (mediana 55 anos) e a maioria das intubações aconteceram na emergência (69.7%), sendo que 91.5% dos intubadores eram residentes de Medicina de Emergência ou Terapia Intensiva.

  • A causa mais comum para intubação foi alteração do estado mental (~45%), seguido de insuficiência respiratória (~30% dos casos).

  • Nas Tabelas 1 e 2 do estudo que descrevem as características de base mostram características muito semelhante entre os dois grupos, o que indica que a randomização foi adequada.

    • Características importantes como indicação de intubação, dificuldade antecipada da intubação, nível de treinamento do intubador e procedimentos feitos no pré-intubação foram muito semelhante entre os dois grupos.
    • O etomidato foi a droga mais usada como indutora (~80% dos casos), seguido da cetamina (~10% dos casos). Além disso, aproximadamente 95% dos pacientes randomizados receberam bloqueador neuromuscular (~70% deles rocurônio e ~25% succinilcolina).
    • Bougie ou fio-guia foi usado em praticamente todas as intubações, sendo que em ~45% delas foi usado o bougie já direto na primeira tentativa.

Principais Resultados

  • Desfecho primário: sucesso na primeira tentativa de intubação.

    • 600/705 (85.1%) no grupo da vídeo-laringoscopia;

    • 504/712 (70.8%) no grupo da laringoscopia direta;

      • Redução de risco absoluto (RRA) = 0.851 - 0.708 = 0.143 = 14.3% (IC 95% 9.9.- 18.7%)
      • Número necessário para tratar (NNT) = 7
      • Em intubadores menos experientes (< 25 intubações prévias), o tamanho de efeito foi maior (RRA = 26.1%, NNT = 4).
      • Esse resultado foi consistente em todas as análises de subgrupo previstas.

  • Desfechos secundários:

    • Complicação grave: 21.4% (vídeo) vs 20.9% (direta)
    • Tempo de intubação: 38 segundos (vídeo) vs 46 segundos (direta)
    • Sucesso na primeira tentativa sem complicações graves: 68.7% (vídeo) vs 59% (direta); RRA = 9.7% (IC 95% 4.5 - 14.8), NNT = 10.
    • Visualização inadequada das cordas vocais: 3.7% (vídeo) vs 17.3% (direta)
    • Intubação esofágica: 0.9% (vídeo) vs 1.3% (direta)
    • Trauma dentário: 0.4% (vídeo) vs 0.3% (direta)
    • Aspiração: 1% (vídeo) vs 1.7% (direta)
    • Mortalidade intra-hospitalar: 2.1% (vídeo) vs 3.8% (direta)
    • Mortalidade em 28 dias: 26.1% (vídeo) vs 26.8% (direta)

Checklist de ensaios clínicos randomizados do Best Evidence of Emergency Medicine (BEEM)

  • Pacientes de emergência? Sim.
  • Os pacientes foram adequadamente randomizados? Sim.
  • Houve sigilo de alocação? Sim.
  • Os pacientes foram analisados nos grupos aos quais foram randomizados? Sim.
  • Os pacientes foram recrutados consecutivamente? Incerto.
  • Os pacientes em ambos os grupos foram semelhantes com relação aos fatores prognósticos? Sim.
  • Os participantes não estavam cientes da alocação do grupo? Não.
  • Os grupos foram tratados igualmente, exceto pela intervenção? Sim.
  • O follow-up foi completo? Sim.
  • Todos os desfechos importantes para os pacientes foram considerados? Sim.
  • O efeito do tratamento foi grande e preciso o suficiente para ser clinicamente significativo? Sim.

Principais comentários

  • No geral, a qualidade deste ensaio clínico é excelente, seguindo a maioria dos princípios de um estudo randomizado com baixo risco de viés.

  • Até o momento, este é o maior estudo realizado para avaliar o efeito da vídeo-laringoscopia em intubações de emergência. Além disso, a população incluída no estudo é altamente representativa do perfil encontrado no dia-a-dia dos prontos-socorros. Dados preliminares do estudo brasileiro BARCO também indicam uma predominância de intubações devido à diminuição do nível de consciência. Em grandes centros, a sequência rápida é utilizada com indutores mais adequados para preservar a estabilidade hemodinâmica, como o etomidato e a cetamina, além dos bloqueadores neuromusculares como succinilcolina e rocurônio.

  • É importante destacar que a maioria dos pacientes submetidos à intubação com o auxílio da videolaringoscopia utilizou a lâmina convencional do tipo Macintosh. A técnica de laringoscopia com esse dispositivo é semelhante à técnica utilizada na laringoscopia direta com o dispositivo convencional. Uma pequena proporção dos pacientes incluídos no estudo foi intubada com a lâmina hiper-angulada, a qual requer uma técnica distinta para a inserção do tubo.

  • A intubação com vídeo-laringoscopia usando a lâmina convencional (ou seja, lâmina Macintosh) possui várias vantagens, além de aumentar o sucesso da intubação na primeira tentativa, como:

    • O operador pode escolher entre realizar a laringoscopia direta e ignorar o vídeo ou utilizar o vídeo para otimizar sua visão.
    • Permite que operadores menos experientes pratiquem a laringoscopia direta convencional enquanto seu preceptor visualiza tudo no vídeo (técnica comumente utilizada em grandes centros para não perder a habilidade de laringoscopia direta convencional). Permitir que outros membros da equipe observem a laringoscopia também pode contribuir para uma melhor dinâmica de equipe e permitir uma manipulação mais eficiente da cabeça ou cricoide pelos assistentes, se necessário.
  • O tamanho do efeito da vídeo-laringoscopia foi maior em intubadores menos experientes (NNT = 4). Esse dado pode ser explicado por vários fatores, incluindo a possibilidade de melhor visualização das cordas vocais (evidenciada por uma porcentagem significativamente maior de Cormack 1 e 2 no grupo do vídeo) e a capacidade de receber feedback imediato do preceptor para o residente que estava realizando a intubação, já que tudo pode ser visualizado na tela do dispositivo.

  • Apesar de o desfecho de sucesso na primeira tentativa não ser centrado no paciente, a análise do desfecho de sucesso na primeira tentativa sem complicações graves também demonstrou benefício do uso da vídeo-laringoscopia (NNT = 10).

  • A última atualização da revisão sistemática da Cochrane de 2022 que incluiu 222 estudos (219 ensaios clínicos randomizados (ECRs) e 3 quasi-ensaios) concluiu que o uso da video-laringoscopia (independentemente do dispositivo) provavelmente está associado a taxas menores de falha na intubação e resultam em taxas maiores de sucesso na primeira tentativa quando comparado à laringoscopia direta convencional. A minoria dos estudos incluídos nessa revisão, entretanto, foi realizado na emergência.

    • O DEVICE trial vai ao encontro dos resultados dessa revisão sistemática.
  • Esse estudo provavelmente será usado para justificar aos gestores de saúde a compra e o uso de dispositivos de vídeo-laringoscopia na emergência.