Clássicos em Medicina de Emergência - Modelo Conceitual de Superlotação
Editor: Lucas Silva, MD, MS, FABRAMEDE.
Cenário clínico
Residente de Medicina de Emergência (R) - “Preceptor, tenho observado que as emergências estão cada vez mais lotadas, e isso afeta a qualidade do atendimento aos pacientes. Existe alguma referência que possa nos ajudar a entender melhor esse problema?”
Preceptor (P) - “Sim, essa é uma questão crucial. Recomendo a leitura de um artigo clássico que aborda o tema da superlotação nas emergências. Ele fornece um modelo conceitual que pode nos ajudar a compreender os diferentes componentes desse desafio. Vamos dar uma olhada?”
Citação
Asplin BR, Magid DJ, Rhodes KV, Solberg LI, Lurie N, Camargo CA Jr. A conceptual model of emergency department crowding. Ann Emerg Med. 2003;42(2):173-180. doi:10.1067/mem.2003.302

Objetivo do artigo
O objetivo deste artigo é apresentar um modelo conceitual que descreve os componentes da superlotação nas emergências, proporcionando uma compreensão abrangente desse problema e servindo como base para futuras pesquisas e estratégias de melhoria.
Descrição do modelo conceitual
Componente “Entrada” (Input): Neste componente, são consideradas as diferentes condições, eventos ou características do sistema que contribuem para a demanda de serviços de emergência. Inclui essencialmente 3 tipos de atendimento:
- Atendimento de emergência: refere-se ao cuidado prestado a pacientes que apresentam condições médicas agudas e que necessitam de tratamento imediato para evitar complicações graves ou risco de vida.
- Cuidado urgente não agendado: refere-se ao cuidado prestado a pacientes que precisam de atenção médica imediata, mas cuja condição não é considerada uma emergência com risco imediato para a vida.
- Cuidado de rede de segurança: refere-se ao cuidado médico essencial fornecido a indivíduos que não têm acesso adequado a serviços de saúde, seja devido a fatores econômicos, geográficos ou sociais.
Componente “Fluxo/Processamento” (Throughput): Este componente aborda o tempo de permanência dos pacientes na emergência e é dividido em duas fases principais.
- A primeira fase envolve a triagem, alocação do paciente na sala de atendimento inicial e a avaliação inicial.
- A segunda fase inclui o processo diagnóstico, o manejo das condições clínicas apresentadas e o tratamento.
Fatores como a coesão das equipes de cuidados, a disposição física da sala de emergência, a eficiência dos exames diagnósticos e a disponibilidade de consulta especializada podem afetar o fluxo durante essas fases.
Componente “Saída” (Output): A disposição ineficiente dos pacientes para enfermarias ou unidades de terapia intensiva (UTI) e a demora na alta contribuem para a superlotação. Problemas como falta de leitos hospitalares, proporções inadequadas de enfermeiro para paciente, dependência excessiva de leitos de cuidados intensivos e atrasos na alta são fatores que afetam a saída dos pacientes da emergência. Além disso, a falta de follow-up adequado após a alta pode resultar em retornos não planejados à emergência.

Limitações do modelo
É importante ressaltar que o modelo conceitual apresentado tem algumas limitações. Foi desenvolvido por um grupo restrito de pesquisadores e não representa um consenso entre um grande grupo de especialistas. Além disso, não abrange todas as possíveis causas e consequências da superlotação nas emergências, nem quantifica a importância relativa de cada componente.
Principais comentários
- O artigo apresenta um modelo conceitual abrangente que descreve os componentes da superlotação nas emergências.
- O modelo destaca os componentes de entrada, fluxo e saída, fornecendo uma estrutura compreensível para entender o problema.
- O componente de entrada considera o atendimento de emergência, cuidado urgente não agendado e cuidado da rede de segurança.
- O componente de fluxo aborda a triagem, avaliação inicial, processo diagnóstico e tratamento.
- O componente de saída destaca a disposição dos pacientes e a demora na alta, juntamente com os fatores que contribuem para esses problemas.